ICT4D: Informação, Comunicação e Tecnologia para o Desenvolvimento

Desde os finais dos anos 1980, o cenário da comunicação na América Latina é protagonizado pelas “novas tecnologias” [que] representam a nova etapa de um processo contínuo de aceleração da modernidade que agora estaria dando um salto qualitativo (…) do qual nenhum país pode estar ausente sob pena de morte econômica e cultural.

Jesús Martín-Barbero, do livro Dos Meios às Mediações, 2001, p.265

 

É intrigante o poder da tecnologia nas nossas mentes, não somente em nossa sociedade, como já percebia o professor Martín-Barbeiro em 1987, ano da publicação do seu livro, hoje um clássico dos estudos Comunicacionais.

À tecnologia dedicamos nossos pensamentos (pesquisas indicam que verificamos nosso celular cerca de 150 vezes por dia[1]). Nosso dinheiro, já que muitos pobres têm celulares semelhantes aos das pessoas mais ricas do planeta (uma “igualdade” que para por aí). E nossa fé em dias melhores. É sobre isso que fala a ICT4D: como usar a tecnologia para melhorar o mundo. Preferencialmente, tecnologia de baixo custo, fácil de obter, fácil de usar, disponível, boa para o meio-ambiente, não-proprietária e engajadora.

Por exemplo, o rádio é dos meios mais importantes quando pensamos em ICT4D: é o que leva informações à Amazônia Legal, ou 61% do nosso território, onde estão menos que 12% dos brasileiros[2] e onde o sinal de celular não chegou totalmente; foi o instrumento usado por Mario Kaplún para implementar o seu K7 Fórum em toda América Latina hispânica; o meio que governos de diversas matizes ideológicas usaram para difundir cursos de formação, etc. Hoje, estamos esperançosos de que o celular será a grande promessa…

Diversos autores, como o boliviano Alfonso Gumucio-Dagron e o japonês Kentaro Toyama, dedicam-se a esse tema e alertam: nenhuma tecnologia pode substituir o investimento na formação e bem-estar dos seres humanos, tampouco o investimento em infraestrutura. É exemplar o projeto Um Laptop Por Aluno, de Nicholas Negroponte: em algumas localidades, por falta de laptops, virou um mouse por aluno, onde cada notebook recebia até 5 mouses. Quando a comunidade não tinha eletricidade, nem comida, nem professores bem formados, o laptop serviu mais como entretenimento do que como ferramenta educativa. No entanto, nas localidades mais desenvolvidas, com níveis mais altos de formação, o laptop de fato pode amplificar as possibilidades.

Porém, como tema candente, que desperta muito interesse em pesquisadores, o ICT4D tem acumulado alguns êxitos. Especialmente onde as pessoas se apropriaram das ITCs e criaram suas próprias soluções; em lugares que já têm pesado investimento nas pessoas e em infraestrutura; em iniciativas comunitárias e abertas; na promoção e engajamento de diversas causas; no gerenciamento e nas boas práticas empresariais; quando se usa as ICTs para espalhar conhecimento; em empresas onde o proprietário acredita poder mudar a cultura organizacional, engajar seus funcionários e/ou inovar, etc.

Podemos pensar naqueles vizinhos que criaram um grupo de WhatsApp para monitorar a rua; nos protetores de animais que usam o Facebook para trocar informações sobre cães e gatos perdidos ou mal-tratados; grupos de experts em informática que criam programas com código aberto; usos de gamificação e jogos sérios para treinamentos (militar, educativo, empresarial, etc.). Enfim, é uma lista bastante longa de exemplos.

O mais importante, diríamos, é saber que a iniciativa deve partir da comunidade, que deve estar consciente do problema e da solução comuns; e, claro, lembrar que a tecnologia apenas amplia nossas capacidades e intenções. Sejam elas boas ou questionáveis.

[1] http://fieldguide.gizmodo.com/how-to-break-your-smartphone-addiction-1595290636 acesso em maio de 2017.

[2] http://www.infoescola.com/ecologia/amazonia-legal/ acesso em junho de 2017.

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