Maranhão: território de luta! Território Mestiço! De culturas, sempre no plural!

Quantas vezes ouvimos e lemos que determinada cultura é pura? Especialmente os exemplos ligados à música e artesanatos indígenas e rurais? Um olhar e leituras um pouco mais atentos derruba essa ideia de forma muito rápida.

Citamos um exemplo um pouco distante do eixo-Rio-São Paulo: o Estado do Maranhão. Desde o “descobrimento” do Brasil pela coroa portuguesa, o território do atual Estado do Maranhão foi ocupado pelos espanhóis e recuperado pelos portugueses 35 anos depois. Porém, 112 anos depois do descobrimento, foi a vez dos franceses que implantaram a chamada França Equinocial, se aproveitando da dificuldade de navegação entre a então capital brasileira, Salvador, e São Luiz.

Para retomar o que entendiam ser extensão de sua terra, portugueses e indígenas Tabajaras de Pernambuco expulsaram os franceses. É dessa época a instalação da província do Maranhão e Grão-Pará, que mais tarde ainda foi invadida por Holandeses.

Como o cunhadismo era prática comum, todos os invasores europeus engravidaram o máximo de índias possível, a fim de contar com a ajuda de seus “cunhados indígenas”. Sabemos que antes de Cabral, o território maranhense contava com dois troncos indígenas: no litoral, do tronco Tupi, os Guajajaras e os Urubus; no interior, do tronco dos Jês, Timbiras e Sacamecras. É possível imaginar uma grande quantidade de filhos de pais portugueses, espanhóis, holandeses e franceses, além de possíveis filhos de Tabajaras ou filhos destes com portugueses do Pernambuco engravidando mães das diversas tribos maranhenses. Nesse cenário, onde estaria a pureza indígena?

Como o tempo não para, lembramos que até o último quartel do século XVII, o Maranhão não era considerado um território escravista, ou seja, os arranjos de trabalho estariam a cargo dos moradores do local. Após 1755, a coroa portuguesa proíbe a escravização de indígenas e, em pouco tempo, mais da metade da população maranhense é composta por africanos escravizados.  Não é à toa a famosa explosão de quilombos e revoltas no Estado (antes da Balaiada, de 1838 a 184, tentando abafar esses problemas, o governo instituiu os “pegas” – o recrutamento forçado de pobres, que se mutilavam ou se embrenhavam na matas para fugir da violência).

Revolta da Balaiada

Ou seja, a mistura é geral. Não somente étnica, mas religiosa, artística, etc. Já durante a Balaiada, o quilombola, cearense, Cosme Bento das Chagas, vulgo Feiticeiro, foi acusado de Crioulização Política: misturou valores e ideias africanas, ideais revolucionários europeus, catolicismo popular da Irmandade do Rosário[1], uso de títulos nobiliários e a ideia caribenha de abolição mediante indenização.

Não surpreende Darcy Ribeiro dizer que os Balaios eram negros, índios e ex-índios. A elite, ou seja, a minoria, é que tinha a ilusão de pureza. Os invasores, tecnologicamente superiores, se adaptaram à região com a ajuda dos dominados e, pouco depois, conseguiramm impor a eles seus valores, elevando esses valores a um status “superior”.

Como os invasores foram muitos no Maranhão, os valores de referência foram igualmente muitos e somados a outros, podemos afirmar que a cultura maranhense é de origem fragmentada e, por consequência, belamente impura. Assim, ao falarmos da cultura do Maranhão estamos fazendo uma generalização grosseira. É importante nos referirmos às culturas. Seja as de lá, seja as de onde estivermos.

[1] Irmandade que veio de Minas Gerais, que chegou da Bahia e antes de Olinda – PE, trazida ao Brasil por portugueses e inspirada por dominicanos alemães da cidade de Colônia – onde surgiu a primeira irmandade, em 1408.

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