A comunicação política no contexto das mídias digitais

Maior disponibilidade de informação indica mais engajamento e participação dos cidadãos?

No contexto da crise da democracia representativa e do declínio da confiança nas figuras políticas do país é preciso considerar os meios de comunicação e as mídias digitais como ferramentas importantes na disponibilização de informação e na visibilidade, não apenas de figuras políticas, mas também, e principalmente, de temáticas que geram engajamento do público.

Para Graeff (2009, p. 5) a chegada de Barack Obama à presidência dos EUA em 2008 coroa o uso político da rede e das mídias sociais e provavelmente “será o evento identificado como início de uma nova era para as campanhas eleitorais”.

Barack Obama utilizou redes sociais como Twitter, Facebook e YouTube para comunicar-se e interagir com os eleitores. Pesquisa realizada pelo Instituto Pew Internet & American Life Project indica que 3 em cada 4 internautas americanos utilizaram a internet para ler notícias e se informar sobre a campanha política de 2008.

Ainda em 2008, enquanto as eleições presidenciais americanas eram marcadas pelo uso da internet não apenas como ferramenta de divulgação de ações de campanha, mas também de arrecadação de dinheiro e de interação entre representados e candidato, no Brasil não era permitido aos candidatos utilizarem, por exemplo, canal no Youtube. Até então a propaganda eleitoral na internet somente era permitida na página do candidato destinada exclusivamente à campanha eleitoral.

A mudança veio a partir da Resolução nº 12.034, de setembro de 2009, quando passa a ser permitida a propaganda por meio de blogs, redes sociais e sites de mensagens instantâneas. Desde então, mais do que estratégia para garantir votos, as redes sociais têm se consolidado como espaço de discussão política. O cidadão comum não só se informa sobre os candidatos, mas também produz e compartilha conteúdos.

É fato que a quantidade de informação política disponível ao eleitorado tem aumentado a cada eleição, assim como se percebe um maior pluralismo na variedade de usuários e entidades dispostos a criarem conteúdos ou, simplesmente, a repassarem ideias, mas não se sabe se a maior disponibilidade de informação tem representado maior engajamento e participação por parte dos cidadãos.

Neste sentido, Saisi (2013, p. 1) indica o papel central dos meios de comunicação na informação e na participação política. Para a autora, “os resultados nas urnas indicam um cenário em transformação, em que a participação popular se coloca como um valor em ascensão e o uso de mídias digitais abre novas possibilidades na arena política”.

Segundo Aldé (2004, p. 41), “o próprio processo de construção de atitudes políticas é comunicacional”. Para a autora, o universo e o contexto da política estão inseridos na perspectiva cotidiana dos cidadãos-eleitores, sendo assim “apreender as rotinas e hábitos dos indivíduos, bem como a versão que oferecem para os eventos públicos e o ideário político, é tarefa central na teorização acerca de suas escolhas e ações” (ALDÉ, 2004, p. 43).

Aldé (2004) salienta que a atitude política e a expressão de opinião são influenciadas por fatores subjetivos (história familiar, trajetória pessoal, predisposição intelectual) e fatores de contexto social (como renda, gênero, idade, grau de escolarização, etnia e religião). Já o ambiente informacional (quadros de referência principais e secundários, como relações interpessoais, mídia, igreja, família e trabalho) e a atitude política sofrem uma correlação, uma vez que se influenciam e são influenciados.

Assim, é preciso considerar as mídias sociais como espaços de mobilização e participação política, bem como as reconfigurações trazidas com a comunicação digital na política, especificamente nas formas de consumo, produção, circulação e recirculação de mensagens.

 Referências

ALDÉ, A. A construção da política: democracia, cidadania e meios de comunicação de massa. FGV Editora, 2004.

GRAEFF, A. Eleições 2.0: a internet e as mídias sociais no processo eleitoral. Publifolha, 2009.

SAISI, K. Mídia e construção de mitos políticos na campanha presidencial brasileira. Grupo de Trabalho de Comunicação e Democracia no V Congresso da Compolítica, 2013. Disponível em: http://www.compolitica.org/home/wp-content/uploads/2013/05/GT-01-Comunicacao-e-Democracia-KatiaSaisi.pdf. Acesso em: 05 ago. 2017.

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