O mundo vai acabar? Não, somente o sonho de internet livre gestada na contracultura dos anos 60. Mas, acredite-me, isso já é terrível o bastante.

É óbvio agora que o que fizemos foi um fiasco, então, deixe-me lembrar-lhes que o que queríamos fazer era algo bravo e nobre”.

Ethan Zuckerman – Um dos pioneiros da Internet, percebendo que seu sonho virou um grande negócio de poucos ganhadores.

Quando sir Tim Berners Lee e seus companheiros do CERN criaram a Web e entregaram-na ao mundo visando o livre compartilhamento de informações foram admiráveis. Mas, olhando confortavelmente de hoje, décadas depois, podemos ousar dizer que foram ingênuos.

É um dado histórico: todas as tecnologias revolucionárias foram capturadas por poderosos para alterar as culturas locais em benefício próprio, sem pejo e sem pestanejar. Via de regra, tecnologias trazidas para perto do império de plantão, para seu desfrute econômico e exploração de pessoas e países menos afortunados. Normalmente, ao se apossarem do novo meio, desarticulam velhos poderosos.

Um exemplo longínquo? Imagine o estrago de impor-se uma tecnologia como a escrita, da cultura letrada europeia, a uma comunidade indígena? Em um dia de sol, diria Oswald de Andrade, eram fortes, satisfeitos com sua história oralmente passada séculos a fio, bravos caçadores, sábias agricultoras, sustentáveis e exemplarmente bem adaptados ao seu lar, sem fronteiras… noutro dia, de chuva, todas suas culturas significavam o atraso. E nada mais.

Um exemplo mais próximo? Vários grupos de cientistas, de vários países, passam parte do século 19 estudando formas de comunicação com fio e sem fio. Somente Graham Bell ganhou fama pelo telefone e poucos outros exploraram a nova tecnologia e mudaram completamente o cenário das comunicações e, consequentemente, nossas culturas.

No Brasil, dizem que Getúlio Vargas apoderou-se de uma nova linguagem, o rádio. Os menos eloquentes não tiveram chance. O que seria de Getúlio, baixinho e rechonchudo, anos depois, em frente a câmeras de TV? Só sabemos que o propalado charme de Juscelino Kubitschek domou a linguagem audiovisual antes de outros candidatos e arrebatou o país.

O que dizer de um “sortudo” como Roberto Marinho, que herdou o jornal do pai e, para multiplicar sua fortuna, fez todos os acordos políticos e econômicos possíveis. Não importava o governo ou a ideologia, mas as facilidades que lhes trouxessem. Assim, uniu-se à ditadura civil-militar a partir de 1964 para fazer o que nenhum país, poderoso ou pequeno, conseguiu à época: ligar suas operações de norte a sul do país. Lucros dos pampas aos seringais, concentrados nos milhares de quilômetros de litoral, vindos de parcerias com os remanescentes das capitanias hereditárias: poucos coronéis que deixavam o cabresto de couro trançado para estrear o cabresto eletrônico e reproduzir a lógica de Marinho em seus feudos: alimente-me ou eu te devoro!

Finalmente, lembramos os nomes de Mark Zuckerberg, do Facebook, Larry Page e Sergey Brin, do Google, os herdeiros de Steve Jobs da Apple, Jeff Bezos da Amazon e Bill Gates da Microsoft. Imagine que, para alimentarmos suas fortunas, entregamos nossos dados livremente, compramos seus produtos e usamos todas as ferramentas que eles nos proporcionam. Matamos, dia após dia, a heterogeneidade.

A Internet livre idealizada na onda da contracultura, lugar de criatividade e infinitas possibilidades, que inspirou teorias como a Inteligência Artificial de Pierre Lévy, Cultura da Participação de Clay Shirky e outras muito otimistas, foi dominada por financistas e empresas que buscam maximizar lucros. Nada além disso. Para isso, essas empresas creem que é necessário aumentar o controle sobre nossa privacidade.

Os alertas de pesquisadores como Neil Postman, Thom Gencarelli, Jonathan Taplin, os ideais Ciberpunks, autores como Ted Nelson (do livro Computer Lib), os esforços de proteção de dados de Eric Hughes e seu Manifesto Cypherpunk[1], as dificuldades pelas quais passam Julian Assange, do Wikileaks, e Edward Snowden, fazem-nos imaginar um futuro distópico. Não cinzento e autoritário como o do livro 1984, de George Orwell, mas colorido e alegremente alienado como o do livro Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley.

O professor camaronês Achilles Mbembe foi taxativo: o humanismo está morrendo[2]. Faz-nos pensar, em face de tamanha agressividade contra intelectuais, gritos contra a comprovação de fatos jornalísticos e históricos, a execração do politicamente correto, o questionamento de leis contra minorias e uma longa lista de tristes exemplos, se o professor não teria razão.

Resta-nos não declarar mortes, mas pensar de forma adaptativa. Apostas na educação para as novas mídias, debates abertos e amorosos, busca de alternativas mais locais e grupais, podem ensejar novas ideias e mais liberdade a um número maior de pessoas.

[1] https://medium.com/medium-brasil/manifesto-de-um-cypherpunk-3c678c4898c5

[2] http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/564255-achille-mbembe-a-era-do-humanismo-esta-terminando

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