O Rádio, a TV e, agora, a Internet só pensam em si mesmos?

“Nosotros intentamos llenar un espacio mucho más vacío y que sentimos necesario,más aún, imprescindible: el de la comunicación popular, el de la educación popular, el del trabajo de base.”

Mario Kaplún[1]

 

Os estudiosos da Comunicação, especialmente da comunicação popular latino-americana, como Mario Kaplún, já clamavam na metade de século XX: se os meios de comunicação não colocarem o ouvinte e o telespectador no centro de seu pensamento, morrerão.

Profecia que, aparentemente, se aproxima da atual situação. As novas mídias estão conseguindo transformar a onipotente TV em apenas mais um meio. Em poucos anos, o que a TV fez com o rádio a partir dos anos 1970 no Brasil, ocorrerá com a TV: seus artistas, suas grandes coberturas e melhores feitos estarão restritos ao seu nicho de mercado.

Pelo visto, somente na crise ou em início das atividades as parcerias são bem-vindas. Durante o sucesso, não há espaço para um trabalho coordenado: é necessário aproveitar o momento e tirar o máximo de uma oportunidade que surge. Para a emergente TV dos anos 1970, toda audiência era pouco. E o rádio que sobrevivesse, como de fato o fez. No cenário atual, já podemos ver grandes redes de televisão olhando melhor não somente para seu conteúdo na internet, mas no rádio também (veja a repaginação da Rádio Globo).

A Internet estimula isso de maneira muito eficaz. Já falamos neste mesmo espaço[2] sobre o crescimento dos monopólios e o encolhimento da heterogeneidade e liberdade na rede mundial de computadores. E esse efeito, se afunila, como se caíssemos no paradoxo da “paralisia da escolha” que afeta os supermercados: muita oferta pode resultar em nenhuma escolha. Ou qualquer uma. Esse paradoxo explicaria porque costumamos escolher sempre o que a maioria escolhe, experimentando pouco e alimentando as marcas mais conhecidas, não os menos conhecidos.

Os internautas que querem ter seu próprio canal, distribuir seu conteúdo e gerar o máximo de engajamento, curtidas, comentários e compartilhamentos possíveis já sentem isso: às vezes, falam para ninguém. Dias atrás, o jornal El País falava sobre a nanofama[3]: o glamour de poucos anônimos que têm milhões de seguidores no YouTube, no Instagram, que inspiram outros youtubers e instagrammers, que lotam eventos e ganham dinheiro com seus canais, mas que são meros desconhecidos para todo o resto do planeta, já que não pertencem ao seu nicho de atuação. Como podemos imaginar: a nanofama é para poucos. E não estamos falando da qualidade do conteúdo, apenas de uma melhor distribuição desse conteúdo (não confundir oferta ampla, em vários canais, com distribuição).

A empresa Netflix (cujo acervo está nas nuvens de outra gigante, a Amazon), que começou como parceira de produtoras de filmes, cineastas e grandes redes de televisão, agora aprofunda a sua linha “Originais da Netflix”: quer desenvolver seu próprio conteúdo e ter seu próprio público. A saída da produtora, roteirista e cineasta norte-americana Shonda Rhimes da rede ABC direto para a Netflix deu mostras de como a empresa vai encarar este novo cenário: diminuição de parcerias. A Disney sentiu-se provocada e já planeja sair da Netflix[4] e montar seu próprio canal de vídeos sob demanda. Com isso, os assinantes do maior site de streaming perdem não somente o Mickey Mouse e sua turma, mas todos os lançamentos da Pixar.

Estratégia semelhante é usada pelo TuneIn, portal que reúne várias emissoras de rádio, produtores de audiocasts e audiolivros e que foi fundada em 2002. Como a Netflix, o TuneIn parte para produção de conteúdo próprio, sendo acusada de traição pelas rádios parceiras. Afinal, a lógica é oferecer uma experiência única. E experiências custam caro.

Já o YouTube, da Google, segue em sua campanha de centralização, colocando os produtores de conteúdo menores debaixo de seu guarda-chuva: no começo do ano anunciou o novo serviço de exibição de canais ao vivo[5] e o incremento da experiência paga, sem anúncios.

Podemos esperar uma diminuição da concentração dos gigantes, aumento da diversidade de ofertas? O tempo dirá, à medida que as crises se revezarem com os sucessos.

Mas é necessário lembrar que após anos vivendo dos nossos dados, que sempre entregamos graciosamente, esses gigantes querem mais, requentando velhas fórmulas: nosso dinheiro em assinaturas. Será que isso será suficiente para, finalmente, colocarem nós, o público, no centro de suas decisões?

[1] Retirado do livro de José MARQUES DE MELO et. al. (Orgs.). Educomídia: o legado utópico de Mario Kaplún. São Bernardo do Campo: Unesco /Universidade Metodista de São Paulo, [s.i.]. 2006

[2] http://grupogems.org/2017/08/11/o-mundo-vai-acabar-nao-somente-o-sonho-de-internet-livre-gestada-na-contracultura-dos-anos-60-mas-acredite-me-isso-ja-e-terrivel-o-bastante/

[3] ttps://brasil.elpais.com/brasil/2017/04/05/estilo/1491410049_489719.html

[4] http://www.thewrap.com/disney-pull-movies-netflix-launch-streaming-service/

[5] http://g1.globo.com/tecnologia/noticia/youtube-anuncia-servico-pago-de-tv-com-canais-ao-vivo.ghtml

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