Internet e participação: a repercussão da condenação do ex- presidente Lula nas redes sociais

 A fim de contribuir para a compreensão do papel e da complexidade da comunicação no contexto de uso das tecnologias digitais, foi proposto o monitoramento de redes sociais, especificamente das postagens referentes à condenação do ex-presidente Lula nas páginas “Movimento Brasil Livre” e “Jovens de Esquerda” nos dias 12 (dia da decisão pela condenação), 13 e 14 de julho de 2017.

Ao todo foram analisadas 105 postagens, as categorias de análise definidas são: a) principais temas abordados; b) atores políticos citados; c) conteúdo com características de humor/ironia; d) conteúdo com características de discurso de ódio/violência; e) fonte original dos conteúdos compartilhados na página; e f) conteúdo informativo qualificado ou repercussão de temas. A partir das análises propostas neste artigo, observa-se que as redes digitais, especificamente o Facebook, representam ambientes comunicati­vos e discursivos com potencial para empoderar o cidadão e construir um debate democrático e plural. No entanto, apesar da maior visibilidade de temas políticos e da maior quantidade de informação, o ambiente digital como espaço de conversação e participação ainda não é alcançado.

Análises[1]

No período de análise, 12, 13 e 14 de julho de 2017, foram coletadas 90 publicações da página no Facebook “Movimento Brasil Livre” e 15 postagens da página “Jovens de Esquerda”.

Em relação à tematização observa-se a opção por temas semelhantes, ainda que a incidência dos assuntos variasse em cada uma das páginas analisadas.

Quadro 1: Principais temas e incidência (%)

Tematização MBL Jovens de Esquerda
Reforma trabalhista 22% 6,66%
Condenação de Lula 44% 33%
Operação Lava Jato 10% 33%
Outros Temas 24% 27%

Fonte: elaborado pelos autores.

Em relação aos atores sociais citados observa-se que apenas quatro atores estiveram presentes nas postagens das duas páginas: Lula, Temer, Geddel e Aécio. “Jovens de Esquerda” apresentou 12 atores diferentes, enquanto “Movimento Brasil Livre” abordou 26 nomes.

Quadro 2: Principais atores apresentados e número de vezes em que foram citados

MBL   Jovens de Esquerda  
Lula 20 Lula 10
PT 14 Geddel 6
Kim Kataguiri 8 Aécio 5
Temer 4 Moro 2

Fonte: elaborado pelos autores.

Quadro 3: Presença de postagens com uso de humor/ironia ou discurso de ódio/violência

  MBL Jovens de Esquerda
Humor/ironia 33% 53%
Ódio/violência 42% 26%

Fonte: elaborado pelos autores.

Observa-se que 75% das postagens do MBL têm características de humor, ironia, discurso de ódio ou violência. Na página “Jovens de Esquerda” esse número sobe para 79%.

Em relação à fonte original das postagens veiculadas, observa-se que a grande maioria das publicações do MBL (96%) são do próprio grupo, apenas 4% são compartilhadas de outras páginas, neste caso foram 3 postagens compartilhadas dos veículos G1, Veja e Estadão. Já na página “Jovens de Esquerda” o compartilhamento é mais comum e acontece em 86% das postagens, enquanto apenas 14% são publicações originais da página. O compartilhamento acontece principalmente a partir de blogs e outras páginas em redes sociais, como o Brasil 247, Revista Ópera, Sensacionalista e Esquerda Diário.

Em relação à categoria “informação ou repercussão” observa-se que 86% das postagens analisadas da página “MBL” tratam-se de repercussão de assuntos, sendo apenas 14% de caráter informativo.  Na página “Jovens de esquerda”, o número de postagens na categoria “repercussão” é de 80%. Enquanto 20% das postagens foram categorizadas como de caráter informativo.

A predominância de postagens que repercutem temas parte do pressuposto que os usuários conhecem a temática e compartilham da mesma opinião estabelecida pela página em questão. Apesar de o Facebook não ser um meio de comunicação, o expressivo acesso à rede (103 milhões de usuários brasileiros) indica seu potencial no agendamento político-midiático da população com perfil na rede.

Neste contexto, a abordagem de temas poderia ir além de dar visibilidade a determinados assuntos ou atores, podendo informar sobre tais questões. Acredita-se que a partir da informação, a conversação na rede seria ampliada e o exercício da participação, facilitado.

Observa-se, a partir das análises aqui propostas, que as postagens abordadas neste artigo dão visibilidade aos mesmos temas presentes na mídia corporativa, dessa maneira não atinge seu potencial de democratizar o acesso à informação, apenas replica e repercute temas pautados e verificados pela grande mídia. A informação também é prejudicada pela opção das páginas em trazer atores sociais em sua maioria políticos, portanto fontes oficiais.

A conversação, um dos recursos prometidos pelas redes sociais em ambiente digital, é prejudicada pela utilização de memes e recursos que indicam discurso de ódio e/ou violência, que acabam por polarizar a discussão. A participação dos usuários fica restrita às reações, comentários e compartilhamentos, que são mais frequentes no caso de postagens com imagens ou vídeos, em detrimento de textos. Neste sentido, o papel ativo do consumidor/produtor é evidenciado, assim como a cultura do compartilhamento e o conceito de propagabilidade (JENKINS; FORD; GREEN; 2015).

 

Algumas considerações

A partir das análises propostas neste artigo, observa-se que as redes digitais, especificamente o Facebook, representam ambientes comunicati­vos e discursivos com potencial para empoderar o cidadão e construir um debate democrático e plural. No entanto, apesar da maior visibilidade de temas políticos e da maior quantidade de informação, o ambiente digital como espaço de conversação e participação ainda não é alcançado. Ao contrário, o que se vê é um “terreno fértil para conflitos que se configuram, às vezes, em uma violência simbólica de um discurso dominante sobre outros mais frágeis ou menos aceitos” (DE OLIVEIRA; DA COSTA; SIGILIANO, 2016, p. 107).

Apesar de o conflito ser característico do processo deliberativo e da própria democracia, espera-se que o ambiente de conversação política seja espaço de “troca bem-intencionada de visões — incluindo os relatos dos participantes sobre sua própria compreensão de seus respectivos interesses vitais” (HABERMAS, 2004, p. 283).

Sendo assim, os resultados obtidos a partir das análises e à luz do referencial teórico reafirmam as ideias compartilhas por De Oliveira, Da Costa e Sigiliano (2016, p. 119) de que, cada vez mais, as redes digitais têm se mostrado arena política “onde fervilham argumentos que vão desde uma busca de uma discussão madura, buscando consensos e entendimentos; a uma violência simbólica em que o pensamento alheio é totalmente ignorado ou mesmo da luta por hegemonia e posições na estrutura social”. De acordo com Rheingold (1997), as redes sociais seriam a transposição do real, a construção e reconstrução de identidades.

Nesse sentido, as informações descentralizadas e pulverizadas em uma dinâmica horizontal evidenciam o poder político das redes a partir da superação de barreiras institucionais e governamentais não apenas no que diz respeito à recepção, produção e compartilhamento de conteúdos, mas principalmente em seu potencial de alcançar a participação política informada.

Assim, as redes sociais, aqui exemplificadas pelo Facebook, possibilitam novas formas de interação e engajamento em assuntos do momento a partir da troca de ideias e informações de forma ativa, permitindo aos usuários a criação de laços de discussão e participação que permeiam a definição de sua identidade. Ainda nesse sentido, muitos assuntos que até então estariam limitados ao espaço privado ganham publicização e pontos de debate em âmbito público. A internet faz com as novas tecnologias digitais tenha um potencial de incentivar, reconhecer e impulsionar o debate de assuntos diversos.

[1] Análises referentes a artigo publicado no I Congresso Internacional de Mídia e Tecnologia da Unesp/Bauru. Autores: Aline Camargo, Caroline Oréfice e Guilherme Hansen.

 

Referências

DE OLIVEIRA, L.A.; DA COSTA, A. A; SIGILIANO, D. M. V. Facebook: uma mesa de debates ou uma arena política digital?. Revista de Estudios para el Desarrollo Social de la Comunicación, n. 14, p. 104-137, 2016.

HABERMAS, J. A inclusão do outro: estudos de teoria política. São Paulo: Loyola. 2004.

JENKINS, H; FORD, S; GREEN, J. Cultura da conexão: criando valor e significado por meio da mídia propagável. Aleph, 2015.

RHEINGOLD, H. A. A comunidade virtual. Lisboa: Gradiva, 1997.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: