O Tecnopolio de Postman, as Impressoras 3D e o Conceito de M2M

Por Luciane Giroto Rosa
Adaptação de artigo apresentado no I Congresso Internacional de Mídia e Tecnologia da Unesp/Bauru, 2017. Autores: João Fernando Marar, José Eugênio de Mira e Luciane de Fátima Giroto Rosa.

Há pouco tempo atrás, seria impensável a possibilidade de imprimirmos objetos em nossos lares ou escolas. Mais alucinante ainda seria frequentar uma instituição que tivesse sido impressa a partir de um projeto construído do outro lado do mundo. E se pensarmos na possibilidade de repormos um órgão do corpo humano ou parte dele também impresso em laboratório?

Afirmam os entusiastas que com a popularização das impressoras 3D, esse cenário já não está mais tão distante. Esse equipamento tem condições de imprimir objetos que já foram previamente planejados em computador utilizando materiais diversos como papel, plástico, carbono e outros. Algumas pesquisas indicam, inclusive, a possibilidade de impressão de tecidos humanos com as impressoras 3D. (REVISTA VEJA, 2016)

Diversas lojas já vendem esse artefato em canais físicos e digitais, a preços variados, parcelado no cartão de crédito.

O RISCO DO “TECNOPOLIO”

Em sua obra, “Tecnopolio: a rendição da cultura à tecnologia” de 1994, o professor americano Neil Postman (1931-2003), que atuou como Diretor de Comunicação na Universidade de Nova Iorque (NY-USA) e se dedicou ao estudo da mídia e educação nos Estados Unidos, apresenta uma proposta analítica sobre a tecnologia e a cultura. O autor apresenta algumas constatações de que a sociedade tem observado o desenvolvimento da ciência e da tecnologia de forma divinizada e então, modificando valores, signos e símbolos que alterariam o modo de ser e de se relacionar dos seres humanos.

O livro data do século passado e consegue expressar ideias que são contemporâneas e atemporais, denotando o quanto o autor era visionário. A partir do seu texto, extraímos alguns questionamentos:

  • A sociedade estaria vivendo um movimento na tecnologia de “criar por criar”, sem a devida preocupação com a ética e os valores?
  • A tecnologia é sempre amigável?

De antemão é possível observar a aproximação (pacífica ou não) entre os literários teóricos (cientistas humanistas) dos físicos, matemáticos, engenheiros e químicos (cientistas exatos) para a resolução dos problemas que se apresentaram desde a obra de Postman, na década de 90, por meio da criação de diversos aparelhos, softwares e soluções que interagem para atender às necessidades humanas e empresariais.

Postam nos alerta que “é um erro supor que qualquer inovação tecnológica tem um efeito unilateral apenas”. (POSTMAN, 1994, p. 14) e propõe uma classificação de sociedade em três categorias distintas: a) culturas que utilizam ferramentas; b) culturas que utilizam tecnocracias e c) culturas que utilizam “Tecnopólios”. Assim, os homens estariam convivendo em maior ou menor grau em contato com esses três tipos de cultura.

Olhando para o final do século XVII, o autor afirma que as culturas eram todas do primeiro tipo e se valiam das mais variadas ferramentas para sobreviver. Portanto, ferramentas eram acessórios comuns no cotidiano dos homens e possuíam destinação muito bem definida.

Com o advento da Revolução Industrial (1760-1840), o autor destaca o surgimento de uma “Tecnocracia”, ou seja, um modelo de sociedade no qual a organização política e social está alicerçada na supremacia da técnica e do conhecimento técnico. Nesse modelo, o autor afirma que os processos e as ferramentas desempenham um importante vetor para a construção de visão de mundo da época e tanto as pessoas como as máquinas são avaliadas por sua contribuição à sociedade.

Já no modelo de sociedade chamado por ele de “Tecnopólio”, Postman apresenta o desenvolvimento tecnológico como grande característica e dessa forma, o risco do serviço tecnológico e suas variantes se sobreporem sobre todas as outras instituições políticas, sociais e econômicas, tornando-se um fim em si mesmo. A tecnologia, segundo as ideias do autor, passaria de um sistema de apoio para uma “ordem totalitária”.

O produto mais importante do Tecnopólio, portanto, seria a informação e a partir da mesma a possibilidade de solucionar problemas das mais variadas escalas. Com esse modelo a sociedade estaria divinizando as máquinas e seus produtos estariam assumindo posição superior aos seres e valores humanos.

A INTERNET DAS COISAS E CONCEITO DE M2M

Logo nos primeiros anos do da década de 90, Mark Weiser dizia em seu em seu famoso artigo “O computador no Século XXI” (WEISER, 1991) que a computação do século que se aproximava, ou seja, a computação que dispõe apenas de interfaces de uso era apenas um estado transicional da computação e que não representava seu real potencial. Segundo o autor, em breve a computação seria invisível e onipresente. Esse artigo foi inaugurador do termo “computação pervasiva”, ou seja, a computação calma, ou aquela que não necessita de interfaces para interação direta homem-máquina. Assim, segundo o autor, o computador está no ambiente, invisível.

Atualmente, podemos observar que em muitas sociedades e culturas, os computadores fazem-se presentes o tempo todo, e apesar disso, não é possível visualizar a real integração entre eles. Criar equipamentos e objetos do dia-a-dia inteligentes e interconectados não é uma ideia inédita, e por muito tempo fez parte da fantasia de um futuro onde todos os objetos de uma casa respondiam aos comandos e as necessidades dos usuários: em um desenho animado clássico da década de 60, “Os Jetsons”, uma família era atendida por uma empregada doméstica robô e conseguia comida e insumos simplesmente ao se apertar um botão.

Nessa analogia, ainda está presente o usuário no intermeio. Ora, mais porque apertar um botão se é possível simplesmente contar com a capacidade do objeto computacional em perceber a necessidade do usuário, se comunicar com o equipamento ou eletrodoméstico responsável e atender a necessidade de maneira proativa?

A possibilidade de comunicação entre objetos ganhou notoriedade científica recentemente com um crescente volume de artigos em revistas e eventos (SINGER, 2012), além de reportagens na mídia sobre a Internet das Coisas (IoT – Internet of Things). Esse conceito, por sua vez, seria a migração da Internet como se conhece hoje, para um ambiente onde objetos (e futuramente, pessoas) estariam nativamente conectados, interagindo de maneira natural e pervasiva.

Segundo Gouveia (2013), o objetivo da IoT é  “a troca de informação relevante, mas na IoT, essa informação é proveniente de todo o tipo de objectos(sic) e dispositivos com capacidade de processamento e comunicação”. Embora o conceito possa ter surgido de uma necessidade mercadológica, como uma opção inteligente aos Códigos de Barras, (GOUVEIA, 2013), a IoT rapidamente se transformou em uma campo de estudo abrangente, onde a possibilidade de integração entre equipamentos, ambientes, sensores e dispositivos de comunicação pessoais poderiam convergir para otimizar a forma como as pessoas vivem, aprendem e trabalham.

Já o conceito de M2M (machine-to-machine, ou máquina para máquina) seria mais simples e abrangente. Ainda conforme, as comunicações machine-to-machine surgiram das tecnologias desenvolvidas para possibilitar comunicação autônoma entre dispositivos e equipamentos sem necessidade de intervenção humana. O autor explica que esse conceito já é aplicado em alguns ambientes industriais bem como em aplicações de vigilância de espaços privados e segurança em espaços públicos, aplicações de logística e monitoramento. Então, embora em um primeiro momento a comunicação M2M tenha se dado através de conexão física (redes de dados que utilizam frequências elétricas), o baixo custo do desenvolvimento e produção de interfaces para comunicação sem fio tem ampliado exponencialmente os horizontes da pesquisa de redes M2M autônomas baseadas em dispositivos sem fio.

É possível depreender que a IoT é a base principal para a interligação de várias redes de comunicação M2M entre objetos, fornecendo, ao mesmo tempo, novos serviços às pessoas. Por isso, as siglas IoT e M2M aparecem fortemente ligadas e representam virtualmente a mesma missão e o mesmo objetivo.

O FUTURO DA TECNOLOGIA & SOCIEDADE

A tecnologia, com seus artefatos, soluções e facilidades para a vida cotidiana, não convida explicitamente a uma análise rigorosa das consequências de sua utilização. Dessa forma, como todo instrumento, ela pode servir a um fim amigável ou nem tanto.

Em seu livro, Postman arrisca a classificar os mais ortodoxos como “tecnófilos”, ou seja, essas pessoas estariam encarando a tecnologia com paixão cega, observando apenas suas qualidades sem levar em consta seus riscos e desdobramentos para o futuro. A partir do instante em que uma tecnologia é aceita de modo razoável por uma sociedade, ela age de imediato e se espalha exponencialmente. Ao homem caberia apenas o papel de gerir seus impactos.

Postman nos alerta sobre o círculo vicioso imposto por novas tecnologias: “o monopólio do conhecimento”, ou seja, o advento de novas mídias, meios de comunicação e soluções tecnológicas colocaria em uma situação de poder um novo grupo que as domina, no entanto, não resolve o problema do encarceramento do conhecimento e de sua consequente manipulação. Deter as informações estaria tomando espaço mais relevante que a sabedoria?

Voltando à ideia de impressoras 3D imprimindo casas, móveis e tecidos humanos, podemos observar a relevância de um alerta pungente da obra de Postman: instrumentos, ferramentas e tecnologias seriam absolutamente necessários a todo o tipo de sociedade. Dessa forma, caberia à sociedade entrar em acordo com a tecnologia, conduzindo esse processo de forma racional e com base no mundo real.

Dessa forma, a reflexão proposta é a de que a tecnologia teria o mesmo destino de todos os outros instrumentos, artefatos ou ferramentas: seus ônus ou bônus depende do fim a que seja empregada. Portanto, caberia ao homem, compreender, gerir e regulamentar o uso da tecnologia inserindo em seus contextos de utilização propósitos cada vez mais nobres.

Postman veio a falecer em 2003, muito antes de encontrar (algumas?) pessoas vivendo em função das máquinas que deveriam servir ao homem. Fica a curiosidade de imaginar o que ele diria a respeito da “sociedade conectada”, afinal segundo ele, na paz ou na guerra, a tecnologia é determinante!

Fonte: https://www.procurious.com/procurement-news/how-to-get-ahead-5-key-skills-for-generation-y

Referências

ANISH, R., & KIRUBAKARAN, S. Design of Embedded Agent for Systems Based On Internet of Things. International Journal of Advanced Research in Electronics and Communication Engineering (IJARECE). Volume 5, Número 4, abril 2016. Disponível em: <http://ijarece.org/wp-content/uploads/2016/0>. Acesso em: 29 dez. 2017.

GOUVEIA, P. R. N. T. Convergência de redes sem fios para Comunicação M2M e Internet das Coisas em Ambientes Inteligentes. 2013. 220 páginas. Universidade da Beira Interior. Disponível em: <https://ubithesis.ubi.pt/bitstream/10400.6/1892/1/Disserta%C3%A7%C3%A3o_Mestrado_Paulo_T_Gouveia.pdf>. Acesso em: 29 dez. 2017.

POSTMAN, N. Tecnopólio: a rendição da cultura à tecnologia. São Paulo: Nobel, 1994.

REVISTA VEJA. Cientistas desenvolvem impressora 3D capaz de fabricar tecidos para transplantes em humanos. 2016. Disponível em: <https://veja.abril.com.br/ciencia/cientistas-desenvolvem-impressora-3d-capaz-de-fabricar-tecidos-para-transplantes-em-humanos/>. Acesso em: 29 dez. 2017.

SINGER, T. Tudo conectado: conceitos e representações da internet das coisas In: SIMSOCIAL: simpósio em tecnologias digitais e sociabilidade 02.  2012. Anais. UFBA/Bahia. Disponível em: <http://gitsufba.net/anais/simsocial-2012/>. Acesso em: 29 dez. 2017.

SNOW, C. P. As duas culturas: e uma segunda leitura. São Paulo: Ed.USP, 1995.

WEISER, M. The computer for the 21st Century. Scientific American, n.265, p.94-104, 1991.

WIKIPEDIA. The Jetsons. 2017. Disponível em:<https://pt.wikipedia.org/wiki/The_Jetsons.> Acesso em: 29 dez. 2017.

 

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