Capital Social pós ebulição das Redes Sociais na Internet: proposta de reflexão

Adaptação de artigo apresentado no I Congresso Internacional de Mídia e Tecnologia da Unesp/Bauru, 2017.

Autora: Elaine Damaceno

Os meios pelos quais nos relacionamos, a forma, com quem, com quantos e com que objetivo, influenciam sobremaneira a vida de cada um individualmente ou em comunidade. O volume e o tipo de relações que uma pessoa possui, impacta de modo determinante a própria vida. É a partir desses relacionamentos que se extrai: satisfação pessoal, alegrias, tristezas, conquistas, desilusões, benefícios materiais, influências, informações, poder, enfim, recursos diversos.

Tudo isso constitui o que chamamos de Capital Social e influencia as múltiplas áreas da atividade humana, passando pelo desenvolvimento social e econômico, vigor da qualidade dos sistemas democráticos, qualidade de vida e até a saúde física e mental dos indivíduos. Isto, em todos os tempos, com ou sem as tecnologias informacionais.

A mediação das relações sociais pela internet (utilizando-se meios físicos como computador, smartphones, tablets, etc) agregou novas formas de “estar junto”, unir em grupos, pessoas que comungam interesses semelhantes. A partir daí, o capital social em circulação nesses meios, passa igualmente por essa ebulição nas relações.

Redes sociais, laços sociais e redes sociais na internet

O tema “redes sociais” já foi abordado por diferentes áreas do conhecimento, Sociologia, Comunicação, Política, Antropologia, Psicologia e Administração, para citar algumas. Por tal multidisciplinaridade, sua conceituação é múltipla e divergente.

Ao analisar estudos de autores como Nelson (1984), Wasserman e Faust (1994), Colonos (1995), Degenne e Forsé (1999), Watts (2003) e Marques (2006), Amaral (2012) identificou como ponto comum nos conceitos, o fato das redes sociais possuírem dois elementos básicos: atores e conexões.

Atores: pessoas, grupos ou instituições, ou seja, os “nós da rede”, para utilizar a denominação mais moderna, de Castells (2003).

Conexões: os relacionamentos em si, as interações, contatos entre os atores. “Desta forma, redes sociais são padrões mais ou menos estáveis de relações ou laços sociais entre atores interdependentes” (AMARAL, 2012, p. 18).

Como resultado da relação entre os atores e suas conexões, tem os laços sociais, que compreendem, em si, o foco do estudo das redes sociais.

Nas suas relações as pessoas estabelecem laços umas com as outras. A força desses laços depende de vários fatores entre os quais o tempo passado em conjunto, a intensidade emocional da relação, a confiança recíproca e os serviços recíprocos prestados. Pode então escalonar a intensidade dos laços numa escala em que num extremo se encontram os laços fortes e no outro extremo os laços fracos. Um laço forte une os pais aos filhos, o marido à mulher, os amigos, os familiares próximos. Por outro lado os laços fracos unem colegas de trabalho, meros conhecidos, familiares distantes. (ALMEIDA, 2012,  posição 482, 34% de leitura).

Assim, laços fortes seriam aqueles com interações com maior intimidade e formas de capital social mais complexas para a rede, geram pequenas comunidades muito unidas mas menos integradas na sociedade em geral e acabam por proporcionar poucas oportunidades aos seus membros.  Por outro lado, os laços fracos seriam os responsáveis por “pontes”, ou seja, pelas interconexões entre os grupos de “amigos”, são os mais importantes na integração social dos indivíduos e que mais oportunidades abrem às pessoas. Estão relacionados ao capital social menos complexo, com menor intimidade e investimento nas relações mais relacionado à circulação de informações. (Adaptado de Recuero, 2014; e ALMEIDA, 2012).

Amaral (2012, p. 18) aponta como características das redes sociais: objetivos comuns, construídos em conjunto; níveis múltiplos de ação e organização; dinamismo e intencionalidade dos envolvidos; criação, recriação e circulação de informações; ambiente propício para parcerias; oportunidade para relacionamentos multilaterais e evolução individual e coletiva para a complexidade.

Tais características não se alteram quando as redes estão na internet. Essas, segundo Recuero (2012b) permitem visibilidade e manutenção dos laços sociais estabelecidos no espaço offline. No entanto, oferecem formas de acumulação e acesso a recursos que não seriam facilmente acessíveis aos grupos ou indivíduos no cotidiano. “Estamos focando, assim, uma mudança no capital social que é causada pela transmutação das redes sociais na mediação do computador e, de forma específica, na mediação dos sites de rede social” (RECUERO, 2012b, p. 599).

Traçando um paralelo entre redes sociais tradicionais (offline) e redes sociais na Internet, Recuero (2012a) aponta diferenças em sua constituição em razão da mediação. As redes sociais online seriam a representação dos atores sociais (no lugar de acesso à pessoa, tem-se o acesso à uma representação dela). Assim, as conexões entre eles não constituem-se, apenas, laços sociais obtidos a partir de relações sociais, mas sim são distinguidas pelas ferramentas que proporcionam a emergência dessas representações. “As conexões são estabelecidas através dessas ferramentas e mantidas por elas”, afirma Recuero (2012a, p.2).

Fenômenos de popularidades: WhatsApp e Facebook:

Temos, hoje, como maior expoente de site de redes sociais o Facebook, que contabilizava em junho de 2017, 2 bilhões de usuários, sendo 117 milhões no Brasil. Desse montante, 1 bilhão de pessoas utilizam grupos dentro do facebook (comunidades) e mais de 800 mil “curtem” algo todos os dias[1].

“Traçando um parênteses” para tratar de outro fenômeno, que não rede social na internet, cabe destacar neste estudo, que o ambiente online propiciou o nascimento e popularização sem igual, nos últimos anos, do aplicativo de mensagens sociais WhatsApp. Segundo Smith (2017), o WhatsApp totalizou 1,2 bilhão de usuários em junho de 2017 e 1 bilhão de grupos no mesmo período.

No Brasil, segundo  o estudo do CONECTAí Express[2], realizado pela plataforma de pesquisas online Conecta, do IBOPE, o WhatsApp é o aplicativo de “rede social” mais utilizado pelos brasileiros, com 91% de penetração na população com acesso à internet no país. Note-se que, por “aplicativo de redes sociais”, a pesquisa entende qualquer app social e, por isso, mensageiros e ferramentas de blog foram incluídas no levantamento, conforme quadro abaixo.

Figura 1: Apps utilizados no Brasil

Fonte: ConectaAí Express[3]. Jun. 2017

De tal modo, percebe-se que os sites e aplicativos de redes sociais, tendo como exemplos principais, aqui, o Facebook e o WhatsApp, permitem uma quantidade de conexões praticamente impossível no espaço offline. Como resultado, há uma maximização das relações sociais, de forma a influenciar de maneira irreversível a percepção e construção do capital.

Investimento em capital social para gerar recursos, valores e benefícios

 Percebe-se que os sites de redes sociais oferecem maneiras de gerar e manter valores construídos a partir de suas conexões (formadas pelos nós das redes/atores). A constatação do tipo de valor (recurso) construído auxilia na percepção do capital social em circulação nesses ambientes e sua influência na própria estrutura das redes sociais.

Como os sites de redes sociais são formados por perfis individuais, a personalização desses permite a exposição da identidade que se deseja mostrar (de cada ator). Com base nessa informação, planeja-se os investimentos necessários para a obtenção dos resultados desejados. Esses, dependem das características de valor informativo/noticioso e de filtragem da relevância de cada site de rede social (twitter ou facebook, por exemplo). Dependem, ainda, da especificidade de conexões permitidas por cada ferramenta.

Recuero (2012b, p. 605) elenca três principais investimentos básicos necessários a serem feitos em um site de rede social:

  1. a) Criação e manutenção das conexões sociais: com potencial para prover determinadas formas de valor para cada ator.
  2. b) Construção de perfil: por meio desse se cria a identidade desejada, de forma a conceber outra dimensão ao investimento, podendo representar um espaço pessoal para recebimento de benefícios variados.
  3. c) Compartilhamento de recursos: Os recursos, aqui entendidos como informações consideradas relevantes, diponibilizadas na rede por um ator como forma de in­vestimento, geram benefícios a ele próprio, aos grupos aos quais pertençe e a outros que acessem tais valores.

Ainda de acordo com os estudos de Recuero (2012b), identifica-se como benefícios gerados pelos sites de redes socias, de forma cumulativa:

  1. Criação de presença: Primeiro benefício gerado, indicando que o ator está apto a agir naquele espaço: publicar e ter acesso às publicações de outros.
  2. Legitimação do investimento: Ocorre na medida em que os atores reconhecem a presença de um indivíduo, por exemplo ao se realizar uma publicação que é “curtida”, ao ser aceito em uma comunidade, etc.
  3. Propiciar visibilidade e popularidade: Quanto mais conexões associativas um ator possui, maior sua visibilidade, que resulta em popularidade e reconhecimento.
  4. Propiciar a circulação de informações: Tal mecanismo, evidencia os atores mais relevantes, ou seja, aqueles responsáveis pela produção de conteúdos mais valorizados.
  5. Propiciar suporte social: Resultado das conexões emergentes por laços fortes. Compreende todo apoio, suporte social, a construção de sentimento e intimidade características desse tipo de conexão.
  6. Geração de proximidade / clusterização entre atores: A aproximação entre os atores gera benefícios a todo o grupo na medida em que gera caminhos para a geração de valores associados a laços fortes (que geram engajamento, na perspectiva de Putnam, 2000, apud Recuero 2012b). A clusterização (geração de laços fortes) surge como um benefício relevante e desejado por propiciar mais investimentos e melhores recursos para o grupo.
  7. Geração de autoridade, reputação e confiança: tratam-se de benefícios associados diretamente ao compartilhamento de recursos. Percebido, por exemplo, no caso de um ator que investe seu tempo buscando informações que considere relevantes para publicar na rede social.
  8. Criação da confiança no ambiente do grupo, que facilita as interações individuais e resulta das ações dos indivíduos em busca de ganhar ou dar visibilidade para determinados atores. Quanto mais confiança gerada pela conexão emergente, maior a tranquili­dade para interagir e investir nas conexões existentes.

Como tratado anteriormente, a confiança é um traço dos laços fortes, um valor essencial por permite a aproximação das pessoas na construção de grupos. Quanto mais confiança, maior a cooperação entre os atores e mais compartilha­mento de recursos, maior a geração de capital social.

Reflexões finais

As redes sociais na internet permitiram aos atores dispor de uma ilimitada quantidade de contatos e recursos para construir seu capital social. Essas ferramentas oferecem grandes possibilidades de criar prestígio social, laços sociais ou, mesmo, manter e até aumentar aqueles construídos no espaço offline. Possibilitam, também, um novo meio de investir recursos com vistas na obtenção de capital social, com maior controle e possibilidade de se programar o desejável. Potencializaram o boca a boca.

Os laços sociais das redes influenciam decisões em todos os aspectos, tanto na vida pessoal quanto das empresas, nos negócios. Muito se passa a ser influenciado pelas interações em grupos ou comunidade. As relações reforçam a identidade e o reconhecimento mútuo, bem como o fluxo de informações.

Os novos meios são ferramentas que podem ser utilizadas de forma a obter formidáveis resultados, mas são canais, como “embalagens”. O que de fato importa é se o conteúdo e a forma como a mensagem é transmitida atingirá quem de fato se busca atingir e influenciar.

As redes de interesse são formadas por públicos que podem interferir de uma maneira positiva ou negativa no universo dos atores envolvidos, sejam indivíduos, grupos ou corporações. Num momento podem publicar notícias favoráveis que melhorem o prestígio; em outro, podem publicar notícias negativas.

Não se tratam de receitas infalíveis, mas, sim, pontos de partida para reflexões. O que se percebe, é que quanto maiores forem os investimentos, mais expectativa e capacidade de se obter benefícios existe.

Referências

ALMEIDA, Jorge. O essencial sobre o capital social. Portugal: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2012. Edição do Kindle.

AMARAL, Henrique Gonçalves. A formação do capital social através das redes sociais na internet.  2012. Tese de mestrado em Administração. Porto Alegre: Faculdade de Administração, Contabilidade e Economia, PUC-RS, 2012.

CASTELLS, Manuel. A Galáxia da Internet: Reflexões sobre a Internet, os negócios e a sociedade. Tradução: Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Zahar, 2003. Edição do Kindle.

D’ARAÚJO, Maria Celina. Capital social. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. Edição do Kindle.

FACEBOOK atinge os 2 bilhões de usuários. G1.com. Online. 27 jun 2017.

HIGGINS, Silvio Salej.  Os fundamentos Teóricos do Capital Social. Chapecó-SC: Argos Ed. Universitária, 2005, 263 p. Resenha de BOEIRA, Sérgio Luíz; BORBA, Julian. Ambiente Scielo. Resenhas/Book Review. Revista Ambiente e Sociedade. Vol. 9, nº 1. Campinas. jan-jun 2006. Procam/USP. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-753X2006000100011>. Acesso em 15 nov. 2017.

HIGGINS, Silvio Salej. Os fundamentos Teóricos do Capital Social. Chapecó-SC: Argos Ed. Universitária, 2005.  263 p. Resenha de VIEIRA, Elias Medeiros. REVISTA DEBATES, Porto Alegre, v. 2, n.1, p. 179-187, jan.-jun.2008. Disponível em: <file:///C:/Users/Elaine/Documents/1%20Mestrado%20Elaine/pesquisas_capital%20social%20online/um.pdf>. Acesso em 15 nov. 2017.

KAUFMAN, Dora. A força dos “laços fracos” de Mark Granovetter no ambiente do ciberespaço. Galaxia (São Paulo, Online), n. 23, p. 207-218, jun. 2012. Disponível em: <https://revistas.pucsp.br/index.php/galaxia/article/view/5336> Acesso em 15 nov. 2017

MCLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como extensão do homem
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MATOS, Heloiza. Capital social, internet e TV: controvérsias. Organicom, ano 5, número 8 (p. 23-35), 1º semestre de 2008. Disponível em: <http://www.revistaorganicom.org.br/sistema/index.php/organicom/article/view/140/240>. Acesso em 15 nov. 2017.

SMITH, Craig. 65 Amazing WhatsApp Statistics and Facts (June 2017). Disponível em: <https://expandedramblings.com/index.php/whatsapp-statistics/> Acesso em: 15 nov. 2017.

RECUERO, Raquel; ZAGO; Gabriela. Em busca das “Redes que Importam”: Redes Sociais e Capital Social no Twiter. Publicado pela Líbero, Vol. 12, nº 24, p. 81-94, dez. 2009. Disponível em: <http://seer.casperlibero.edu.br/index.php/libero/article/view/498>. Acesso em 15 nov. 2017.

RECUERO, Raquel. (a) Redes sociais na interne. Porto Alegre: Sulina, 2009. (Coleção Cibercultura) 191 p .

______. (b) Diga-me com quem falas e dir-te-ei quem és: a conversação mediada pelo computador e as redes sociais na Internet. Revista da Famecos, Vol. 1, nº 38, 2009. Disponível em: <http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/revistafamecos/article/view/5309/3879>. Acesso em 15 nov. 2017.

______. (a) A rede é a mensagem: Efeitos da Difusão de Informações nos Sites de Rede Social. In: VIZER, Eduardo. (Org.). Lo que Mcluhan no previó. 1ª ed. Buenos Aires: Editorial La Crujía, 2012, v. 1, p. 205-223. [versão rascunho/draf]. Disponível em: <http://www.raquelrecuero.com/arquivos/redemensagem.pdf>. Acesso em 15 nov. 2017.

______. (b) O Capital Social em Rede: Como as redes sociais na Internet estão gerando novas formas de capital social. Contemporânea (UFBA. Online), v. 10, p. 597-617, 2012. Disponível em: <https://portalseer.ufba.br/index.php/contemporaneaposcom/article/viewArticle/6295>. Acesso em 15 nov. 2017.

______. Curtir, compartilhar, comentar: trabalho de face, conversação e redes sociais no Facebook. Revista Verso e Reverso (Online), v.28, n. 68, 2014/2. Disponível em: <http://revistas.unisinos.br/index.php/versoereverso/article/view/ver.2014.28.68.06> Acesso em 1º nov 2017.

TEIXEIRA, Patrícia Brito. Caiu na rede. E agora: gestão e gerenciamentos de crises nas redes sociais. São Paulo: Évora, 2013. 168 p. Edição do Kindle.

WHATSAPP é o app de rede social mais usado pelos internautas brasileiros. Conecta-i. (plataforma de pesquisas online do Ibope). Online. Jun. 2017.

 

[1] Conforme dados divulgados pelo próprio Mark Zuckerberg, presidente-executivo do Facebook em junho de 2017. (Portal de Notícias G1, https://g1.globo.com/tecnologia/noticia/facebook-atinge-os-2-bilhoes-de-usuarios.ghtml, Acesso em 25/11/2017).

[2] A pesquisa foi realizada com 2.000 internautas em junho de 2017 por meio do CONECTAí Express, pesquisa trimestral, online, multiclientes, com cobertura nacional, que permite responder a qualquer tipo de pergunta de forma exclusiva, rápida e econômica (Disponível em: http://conecta-i.com/?q=pt-br/whatsapp-%C3%A9-o-app-de-rede-social-mais-usado-pelos-internautas-brasileiros, Acesso em 15/11/2017).

[3] ConectaAí Express trata-se de uma plataforma de pesquisas online do Ibope, disponível no site: <http://conecta-i.com/?q=pt-br>. Acesso em 15 nov 2017.

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